Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina

José Luiz Tavares Flores Soares

Reminiscências
Antes de mais nada, devo dizer que especial carinho me assalta ao falar em José Luiz Tavares Flores Soares, e é chegado hoje o momento de explicar o porquê de sua escolha como meu Patrono em nossa Academia. Sendo eu um primo bem mais jovem, guardei sempre em minha memória a bela imagem daquele homem moreno-cuia, de cabeça totalmente alva, sentado
no alto de um trator, trabalhando as terras de sua chácara em Viamão. Esse o raro lazer na vida do clínico brilhante, amado e respeitado pela enorme plêiade de pacientes e amigos que tão bem soube angariar ao longo de sua produtiva existência. Éramos ramas de um mesmo tronco, ambos trinetos de D. Margarida Teixeira de Paiva, mulher prolífera, de força e espírito empreendedor para sua época, doadora do terreno e responsável pela construção do templo onde se realiza a mais popular festa de Porto Alegre: Nossa Senhora dos Navegantes. Foi nossa trisavó, D. Margarida, filha de Inácio José de Paiva, primeiro cirurgião-mor do Hospital Real da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, eleito em 5 de janeiro de 1815, para compor a mesa administrativa da Casa, tendo como Provedor o Governador Marquês de Alegrete (Spalding, Walter: Pequena História de Porto Alegre, pág. 79, 1967). Desta distante época, idos de 1800, surgem, com nosso tetravô, os laços afetivos que uniram os descendentes da matriarca D. Margarida à Irmandade da Santa Casa de Porto Alegre, entidade à qual, orgulhosamente, Flores Soares pertencia, na qualidade de Irmão.

Filho de Alcides Flores Soares e de Maria José Tavares Flores Soares, nasceu em Porto Alegre, no dia 30 de março de 1906, encaminhando seus estudos para o aprendizado da difícil arte da medicina. Em 1929, concluiu seu Curso Médico em nossa velha e querida Escola de Medicina da UFRGS, ardilosamente morta e vivissecada por alguns de seus diretos filhos. Em minha juventude, Flores Soares, juntamente com o saudoso prof. Guerra Blesmann, foram os primeiros que me ensinaram a amar e respeitar o antigo casarão, que sediou a Faculdade de Medicina, referencial pleno de nossas vidas médicas, hoje deteriorado pelo abandono, entregue às mãos de administradores historicamente não habilitados a sê-los.

A partir do momento em que teve seu diploma nas mãos, José teve o dom de vestir os dois hábitos dos quais nunca mais se desfaria: o imaculado avental de Hipócrates na lide diária com os doentes e a toga de tribuno em defesa dos ideais e metas da classe médica. Em novembro 1932, casou com a srª. Margot Moeller, filha de tradicional família de comerciantes de Porto Alegre, falecida no ano passado. Deixou do casamento 5 filhos, dos quais, o mais jovem, justamente aquele que leva seu nome, segue seus passos na carreira médica.

No exercício da medicina, Flores Soares galgou os mais variados e enobrecedores escalões da profissão, quer na Santa Casa, quer na Escola de Medicina, quer na política classista, da qual foi um dos nossos grandes batalhadores. Recém formado, embrenhou-se logo pelos caminhos que jamais abandonaria, ou seja, a perseguição constante de seu amplo ideário médico. Em 1930, assume o cargo de Adjunto da 2ª Enfermaria da Santa Casa, serviço do inesquecível prof. Thomas Mariante, luminar de nossa medicina, a quem era ligado por laços familiares. Homem irrequieto e batalhador incansável, a partir daí não mais cessa suas atividades, as quais terminarão por levá-lo, no momento exato, à Direção máxima de nossa medicina: a Presidência da Associação Médica Brasileira. Rememorando o currículo deste homem que tão bem soube exercer as funções de clínico geral e médico de família, meio século antes desta atividade surgir como especialidade médica, descoberta atual dos gerenciadores do moderno ensino médico, destacaríamos, com orgulho e carinho de primo e afilhado, alguns dos passos mais significativos de sua produtiva caminhada ao longo da vida.
Vamos encontrá-lo em 1932 como Adjunto do Diretor de Clínica Médica do Hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência, período áureo desse nosocômio. Com a transbordante energia de sua juventude, assume, neste mesmo ano, o cargo de Secretário de Redação dos Arquivos Rio-grandenses de Medicina.
No Ensino Médico, seu percurso não foi menos ascendente. Em 1933, torna-se Assistente Voluntário da Primeira Cadeira de Clínica Médica e, em 1934, é elevado ao cargo de Assistente. Em 1935, assume a chefia desta mesma Cadeira de Clínica Médica de nossa Escola de Medicina, considerada na época, a segunda Faculdade em qualidade de ensino Médico no País. (Como decaímos desde então....).
O ano de 1949 lhe traz profundas emoções: por unanimidade, recebe o título de Irmão da Santa Casa de Misericórdia de Porto
Alegre. Os fortes vínculos religiosos de sua família e a excelente qualidade social do seu trabalho são publicamente admitidos através do reconhecimento de seu labor e de sua conduta. Ser Irmão simboliza a saga familiar, profundamente ligada à religião.

O ano de 1951 é profícuo na vida de Flores Soares: a intensa e sóbria atividade despendida o leva, em 27 de outubro daquele ano, juntamente com um grupo de amigos idealistas, a fundar a nossa AMRIGS. No mesmo ano lançam-se as pedras fundamentais da Sociedade Mater dos médicos de nosso país, a AMB, e aqui também, o incansável pelejador surge como um de seus sócios-fundadores. Se não bastasse ver vicejar neste ano estas duas importantes associações profissionais, às quais dedicou, nas suas estruturações, grande parte de seu tempo e de seu esforço, torna-se o primeiro Presidente da Sociedade de Medicina Interna do Rio Grande do Sul.
Homem de aparência tranqüila, ponderado em suas atitudes, mas de espírito ágil e insatisfeito com suas vitórias, transforma-se em soberbo tribuno, porta-voz oficioso dos médicos rio-grandenses nas décadas de 30 a 60. Em sua firme ascensão no âmbito médico, assume, em 1954, a Presidência da Sociedade de Medicina de Porto Alegre.
Unindo-se a um seleto grupo de colegas, vários deles ainda em plena atividade, estruturam e fundam o Conselho Regional de Medicina, entidade que veio a presidir no biênio 1957–1958 e da qual, orgulhosamente, recebe a inscrição de número 1 em sua carteira.
Lutador incansável pelos interesses da medicina sul-rio-grandense, vem a presidir a Associação Médica do Rio Grande do Sul por dois biênios, 1959–1961 e 1961–1963. Firmava-se nossa Associação como resultado do trabalho desprendido e amoroso de seus primeiros diretores.
Como pináculo de sua luta pelos direitos médicos, é eleito e preside o órgão máximo da Medicina Nacional, a AMB, no biênio 1963–1965, quando mais uma vez demonstra suas qualidades de político habilidoso e bem quisto. Em sua gestão na AMB, depara com séria crise no meio médico de seu Estado, sendo obrigado a constantes intervenções em busca da pacificação que sempre almejara, pois apenas assim a classe médica cresceria forte e consciente. Como decorrência de seu trabalho, gestiona e atinge eleger Sebastião de Almeida Prado Sampaio, Catedrático de Dermatologia da USP, como seu sucessor na AMB. Consegue, assim, dar à nossa entidade máxima, continuidade às suas idéias.
Clínico de reconhecido valor e grande lutador por uma honesta política classista, é agraciado com a Ordem do Mérito Médico do Brasil, honraria destinada a figuras ímpares da Medicina Nacional. No final da década de 1960, passa a integrar em carácter permanente o Conselho Federal de Medicina, cargo que ocupará durante os 10 últimos anos de sua produtiva vida. Entre 1970 e 1976, torna-se Delegado da AMB, representando-a nas Assembléias da Associação Médica Mundial. Entre outras atividades exercidas e honrarias recebidas, lembraríamos as de Sócio Benemérito de diversas entidades médicas, destacando em especial os títulos outorgados pela AMRIGS e AMB, associações profissionais que devem sua origem ao esforço permanente de médicos de atuação marcante e determinação quase obsessiva em busca de suas metas. Naquela época de criações e nascimentos, deparamos sempre com grupos de colegas dedicados e altruístas, batalhando na constante busca de seus ideais, na procura de uma classe unida e forte. Naqueles momentos em que novas idéias fervilhavam nos meios médicos, lá sempre encontramos o nome de José Luiz Flores Soares, luzindo com sua inteligência, habilidade e tenacidade incomuns.
Os homens parecem nascer com seus destinos talhados para o sucesso ou para a mediocridade. Flores Soares cumpriu, ao longo de sua existência, tudo aquilo a que se propusera. Encontramos hoje na AMRIGS, no CREMERS e na AMB a perpetuação de seu trabalho. Deste modo cumpriu o seu destino. Em 1º de fevereiro de 1977, a falência abrupta de seu coração retira-o do convívio de inúmeros amigos e do carinho de sua família. Assim quiseram os fatos, e a 2 de fevereiro, dia da Senhora dos Navegantes, maior festa popular de Porto Alegre, que, como já dissemos, foi criada por sua trisavó, vai repousar no solo de sua amada cidade, pranteado por incontável legião de clientes, por seus amigos, por sua classe profissional, por aqueles a quem sempre dedicou sua labuta e seu viver.